2020: a gente só quer viver e pronto

Quando falarmos e lembrarmos de 2020 iremos generalizar como o pior ano de nossas vidas. Normalmente, a gente fica com a visão ampla das coisas. Marcamos o que foi negativo, tendemos a empacotar os fatos e a engavetar. Mas e as singularidades de 2020?


Estivemos (e estamos) sim no limite, mas também tivemos o lado bom. Ah, este lado bom que tanto se fala. Como podemos defini-lo? Coloquei alguns tópicos.

- Foram implementadas medidas de higiene, que certamente permanecerão em nosso cotidiano (espera-se!).

- A solidariedade cresceu, com pessoas cooperando com cidadãos em vulnerabilidade, fazendo alguns serviços gratuitos, organizando doações, etc.

- Empresários reorganizaram espaços, adequados aos protocolos determinados pelos órgãos de saúde.

- Muitos preços baixaram, muitos cursos gratuitos foram oferecidos, muitas palestras foram criadas e oportunizadas.

- O comerciante valorizou o turista local/regional, é ele que, em pequenos passeios, está fazendo essa cadeia andar.

- O Estado colocou a mão na economia. Por que agora foi possível? Por que foi importante? O mercado não se regula sozinho? A resposta talvez seja não.

- Espaços tiveram de cuidar o limite de pessoas em seu interior. Ora, e antes, podia ser o inaceitável? O quanto mais apertado melhor fica? Quanto mais gente melhor? De repente, estávamos vivendo uma loucura, mas na ânsia de fortalecer o fator econômico, isso não importava.


As pessoas - que puderam - investiram, gastaram algum dinheiro para adequações, correram para não ficarem para trás ou fecharem. Por que o banheiro do bar que às vezes não tinha a menor condição de uso, pode hoje estar limpo, com papel higiênico, sabão, papel toalha, álcool? Com essa pergunta sobre o banheiro do bar (tão óbvia, louca e simplória), a gente pensa de forma geral: era aceitável o que tínhamos antes?


É triste saber que alguns setores amargaram prejuízos, como o de eventos e de turismo, mas, se existe um sol que brilha para todos, também é importante reconhecermos as oportunidades advindas da pandemia. Alguns segmentos cresceram, certas pessoas venderam mais, outras, diante da necessidade, foram encorajadas a empreender, pais (re) aprenderam algumas lições junto dos filhos. Ainda, as pessoas reconheceram a importância da higienização (sanitização); as tecnologias que ainda “engatinhavam” no setor educacional pegaram o “bastão” da noite para o dia; as pessoas perceberam que não vivem sem música, sem cantores (as), sem cultura, e principalmente, a ciência virou protagonista (mesmo que alguns neguem) e deveria estar no topo do ranking de investimentos de um país. O mundo de olho nos laboratórios, nos cientistas, nas entrevistas, nos nomes tão diferentes de vacinas (Sputnik, Pfizer), pensando: quando será que ela vem?


Tá bom, tivemos (e estamos tendo) muitas falhas. Relaxamos nos cuidados. Não foi feito um plano consistente para prevenir/conter a pandemia. Presenciamos flexibilidades nas eleições. A torcida é que possamos passar vivos pela nossa estupidez, ganância, intolerância, relaxamento.


Falando em vivos, como podemos ponderar sobre as coisas boas diante de tantas mortes? É difícil, mas é preciso. O otimismo não deve morrer. Os que ficam tem que terem aprendido alguma coisa. Ah, que falta faz um professor no dia a dia de uma criança; que falta faz um colega pra um chimarrão na sala de aula; que falta uma viagem técnica da faculdade; que saudade de organizar uma viagem, uma festa; que saudade de chegar bem pertinho dum vô, vó; que saudade de controlar: vou viajar pra praia em outubro, vou tirar férias em janeiro, vou ter um filho este ano, vou começar o doutorado, vou casar, vou tentar um novo emprego, quero arranjar um estágio. Acabou o controle. Mas não era ele que nos matava? Agora, a gente só quer viver e pronto.



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